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No mês da Consciência Negra, conheça a tradição do Congado, importante manifestação religiosa de Minas Gerais

O encontro reúne congadeiros, voluntários e devotos em uma programação marcada por procissões, missa conga e manifestações de fé

03/11/2026 às 18h00 Atualizada em 03/11/2026 às 18h23
Por: Janaína Oliveira
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As crianças trazem esperança de que a tradição do Congado permaneça viva/Janaína Oliveira
As crianças trazem esperança de que a tradição do Congado permaneça viva/Janaína Oliveira

Minas Gerais carrega em sua história uma riqueza cultural construída a partir de diferentes povos, costumes e tradições. Entre as manifestações que traduzem essa diversidade está o Congado, uma expressão de fé, resistência e identidade que atravessa gerações e mantém viva a ancestralidade africana no estado.

Presente em diversas cidades mineiras, o Congado reúne música, dança, religiosidade e devoção em celebrações que homenageiam santos católicos, especialmente Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Por meio dos cortejos, dos cantos, dos tambores, das vestimentas coloridas e dos rituais, congadeiros e congadeiras reafirmam uma história que não pode ser esquecida.

Reinado de Nossa Senhora em Nova Era

A cidade de Nova Era, no médio Piracicaba, foi palco de mais uma edição da tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosário. No município, a celebração que atravessa gerações e tem raízes no século XVIII. Com a participação de dezenas de voluntários e inúmeros devotos, a festividade reúne comunidade e visitantes em um dia dedicado à fé, à cultura e à preservação das tradições do Congado.

A programação começa pela manhã e se estende até o final da tarde, com duas procissões, Missa Conga e a tradicional cerimônia de troca das coroas. Guardas de Congo, Marujos, Moçambique e Caboclos, vindas de diferentes cidades, participam das celebrações. A organização da festa envolve uma grande mobilização comunitária. “Aqui em Nova Era temos uma fé muito grande em São José, que é o nosso padroeiro e em Nossa Senhora do Rosário, que é a protetora do povo negro. Com isso, duas vezes ao ano temos festas religiosas que se tornaram referência cultural para nosso povo. Participar desta celebração é uma oportunidade de vivenciar a fé, a cultura e a tradição novaerense”, revela Padre Elvis José Corrêa.

Os reis festeiros ficam responsáveis por arrecadar os alimentos, organizar as refeições, desde o café da manhã até o almoço, e colaborar com a programação junto à comunidade católica. Meyre Viana e o marido Demí foram os reis de 2026. “Foi um ano preparando tudo com muito amor, muita dedicação e a ajuda de tanta gente que seria difícil dizer o nome de todos. Graças a Deus e Nossa Senhora deu tudo certo e fizemos essa festa bonita e tão importante para a cultura da nossa cidade”, revela a rainha festeira.

Entre tantos voluntários, Rosa se destaca pelos 33 anos de dedicação à cozinha da festa. Devota desde a infância, ela conta que herdou da avó o amor por Nossa Senhora do Rosário. “Eu tenho muita devoção por Nossa Senhora do Rosário. É ela quem nos dá força para viver nossa vida e nos sustenta nas nossas lutas. Eu ajudo na cozinha com muito amor para deixar nossos visitantes felizes com a comida que servimos”, conta

A celebração carrega um significado histórico, religioso e cultural para o povo negro. Com guardas de Congo desfilando pelas ruas, tambores anunciando a devoção e a comunidade reunida em torno de Nossa Senhora do Rosário e de outros santos protetores do povo negro, a celebração reafirma o Congado como uma das mais importantes expressões da identidade cultural de Nova Era e de diversas cidades mineiras. 

Uma herança que atravessa gerações

O Congado vai muito além de uma festa ou de uma celebração religiosa. É uma forma de transmitir conhecimentos, valores e histórias que fazem parte da memória coletiva das comunidades. Os mais velhos ensinam aos mais jovens os cantos, os passos, os instrumentos, os significados dos rituais e o respeito aos antepassados.

Cada guarda, cada reinado e cada cortejo carrega símbolos e histórias que ajudam a compreender a formação cultural de Minas Gerais. Nesse contexto, a tradição também representa um espaço de pertencimento, no qual famílias e comunidades se reconhecem como parte de uma história compartilhada.

A oralidade ocupa um papel fundamental nesse processo. Muitas das histórias e dos ensinamentos são transmitidos de geração em geração, preservando conhecimentos que nem sempre estão registrados nos livros, mas permanecem vivos na memória e nas práticas das comunidades.

Fé, resistência e identidade mineira

A importância do Congado para Minas Gerais também está relacionada à valorização da cultura afro-brasileira. Em um estado cuja história foi profundamente marcada pela mineração e pela escravização de africanos e seus descendentes, a manifestação representa a permanência de uma herança cultural que resistiu à violência, ao preconceito e às tentativas de apagamento.

Os tambores que conduzem os cortejos, os cantos que ecoam pelas ruas e as coroas que simbolizam a realeza negra são expressões de uma memória que permanece presente. Cada celebração reafirma a contribuição da população negra para a construção da identidade mineira.

Além do aspecto religioso e cultural, o Congado também movimenta as comunidades, fortalece vínculos sociais e contribui para a valorização do patrimônio imaterial. As festas envolvem a participação de famílias, moradores, músicos, artesãos e devotos, promovendo encontros e mantendo vivas práticas que fazem parte da história local.

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